Por Clara Roman / ECA-USP

Nomadismo, sedentarismo, escrita. Durante anos, os estudos pré-históricos eram feitos a partir de dois ou três aspectos estruturais. Arqueólogos julgavam as civilizações e comunidades de acordo com o desenvolvimento de cada povo.

Dentro dessa visão, os índios brasileiros eram encarados como comunidades primitivas, que passaram da pré-história a história em poucos dias, com a chegada das naus portuguesas. Estudos recentes, no entanto, propõem novas abordagens sobre a história indígena brasileira.“A floresta amazônica não é só uma formação natural. Ela foi bastante ocupada no passado,” afirma Eduardo Goes Neves, arqueólogo e pesquisador do MAE -USP. Dentro desse pensamento, o termo pré-história é deixado para trás. Hoje, fala-se história antiga brasileira, uma vez que esses grupos possuíam vivência temporal e modificavam seu ambiente.

A ausência de escrita prejudica a eficiência dos estudos das comunidades indígenas que existiram no passado, assim como as moradias de barro, que desaparecem em pouco tempo. Outro fator atribuído a dificuldade de se pesquisar a história de sociedades tropicais é a qualidade do solo. O chamado latosolo amarelo, terra ácida e amarelada, proporciona péssimas condições de conservação de objetos. Entretanto, observa-se, com muita freqüência nos sítios arqueológicos uma terra de coloração escura, denominada terra preta.

Esse solo é fruto da ação humana dos antepassados e são muito procuradas ainda hoje, pela sua alta fertilidade. Os antigos adicionavam toda espécie de adubo em buracos. O mais impressionante é a manutenção dos nutrientes no solo ao longo dos séculos. Nesse tipo de terreno, os diversos artefatos se conservam.

A arqueologia, dessa forma, tem sido capaz de detectar a diversidade cultural que habitou a Amazônia antiga. Até pouco tempo, acreditava-se que havia na região pouca atividade humana, nômade e simples. Hoje, é sabido que há seis grandes famílias lingüísticas na Amazônia, que se desmembram em muitos outros idiomas. Esse fato comprova a multiplicidade de povos e vivências no passado. A Europa, por exemplo, possui três matrizes lingüísticas.

A produção de cerâmica também é abundante, e muito variada. Ela é utilizada para diferenciar os diversos grupos, que conviveram ou substituíram-se, devido a guerra. “Na Amazônia Central, a mudança na cerâmica e nas formas de assentamento são marcadores de variabilidade cultural no passado,”comenta o arqueólogo. A arqueologia na região é ainda recente, com 15 anos de pesquisas. No entanto, os sítios arqueológicos são abundantes. Apenas na Amazônia Central, já foram encontrados mais de duzentos.

Sedentarismo e nomadismo

Essa diversidade pode estar ligada ao próprio modo de produção daquelas sociedades. Teses hoje difundidas explicam a civilização européia, do pacífico e da África subsaariana como sociedades em que um povo, ao dominar o processo agrícola, utilizou-se de sua superioridade técnica para subjugar os demais. Em decorrência, esses locais possuem um tronco lingüístico principal.

Segundo Neves, a Amazônia permitia um processo produtivo mais simples, que exigia menos tempo de trabalho, devido suas próprias condições ambientais. “Não existia pressão para a domesticação de plantas,” diz. As tribos utilizavam-se da pesca abundantes, caça e extração de frutos de plantas selvagens porque isso permitia uma sobrevivência farta. Esse fato não impediu o sedentarismo nem o desenvolvimento cultural dessas tribos, mas foi essencial na conservação do bioma. Os índios brasileiros aproveitavam o desmatamento que ocorria naturalmente e os benefícios que o próprio ciclo da natureza proporciona. A queima compulsória de mata para plantio de mandioca, prática hoje difundida entre os caboclos, foi inserida pela colonização européia nesses locais.

Esse fator é relevante do ponto de vista prático. Seria possível aproveitar esse legado dos antepassados para aprender técnicas de desenvolvimento sustentável? Talvez, e isso solucionaria muitos impasses ambientais vividos pela floresta.

Fonte: http://www.portaldomeioambiente.org.br/agencia/reporter-do-futuro/4352-novos-caminhos-para-a-arqueologia-amazonica.html